O galego é umha língua internacional!

domingo, 1 de Novembro de 2009

VII Castanhaço-rock


O 7 de Novembro em Chantada a associaçom cultural O Castanhaço organiza umha nova ediçom do já célebre festival. Desta volta, para além de palestras, da II ediçom dos Jogos Bravús e do aberto de bilharda; contaremos na nossa vila com a presença de regueifeiros e dos grupos:

Talco [Itália]
Skándalo Gz [Galiza]
Dixebra [Asturies]
Kogito [Galiza]
Peste&Sida [Portugal]

Que nom falte ninguém a esta festa da música galega!

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Friage mental: as armas químicas e biologicas do Império. A Constipaçom A como fonte de lucro para as farmaceúticas


Em pleno furor da mal denominada constipaçom A adjuntamos um vídeo que ataca a falta de escrúpulos do capitalistmo à hora de atacar a saúde das pessoas e mais umha reflexom que já data de começos de Maio:

Texto:

http://wwwafiador.blogspot.com/2009/05/friage-mental-as-armas-quimicas-e.html


Vídeo:

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

I. Patriarcalismo político e lingüístico na Galiza: história dumha dupla subordinaçom

τις ۥεπέσσεται (alguém sobreviverá), Odisseia IV, 756

Sólo creía en aquello que tocaba, salvo la libertad que nunca la tocó, pero creyó, sin embargo, en ella mucho tiempo. Leopoldo Alas “Clarín”: La Regenta.

Ao longo da história negada da Galiza, ao longo das seculares aldrages que padeceu o nosso povo, ao longo da recua de discriminaçons que galegas e galegos padecemos por mor da nossa língua, fôrom várias as vezes em que se vencelhárom ao longo do tempo o futuro do nosso idioma galego–português ao autogoverno da Galiza.

Logicamente, um poder político autónomo e próprio pode reagir perante as betesgas do centralismo, mal que bem, e, de facto, na Galiza existe hoje mais consciência nacional ca nunca, ainda que seja preciso indicar que para alcançar o monolingüismo social em galego é quase totalmente imprescindível exigir o cumprimento total do nosso direito à autodeterminaçom como povo e após umha desalheaçom social, umha catarse colectiva e ordenada ,desde a luita e a memória dos devanceiros à instauraçom normalizada da língua e da República Socialista da Galiza.

As estruturas patriarcais continuam a ser o elemento dominador nas sociedades capitalistas ocidentais. Em todo o mundo 70% dos pobres e dous terços dos analfabetos[1] som mulheres, sem falar já das vítimas de violaçons, guerras, ablaçons, etc. Destarte, a pesar de constituir umha força de trabalho enorme apenas som donas de 1% da terra. Na Galiza, nom som poucas as mulheres titulares ou co-titulares dumha exploraçom gandeira, mas sem possuírem a propriedade da terra, e, portanto, a mulher galega sofre umha tripla discriminaçom: a de ser mulher, a de pertencer a umha naçom oprimida e a de género.

A taxa de desemprego feminina supera com muito a masculina e a diferença nos ordenados (salários) continua viva. A precaridade, a temporalidade e a economia submergida som realidades infelizmente associadas a grande parte das mulheres trabalhadoras da Galiza, que seguem ocupando-se das tarefas domésticas e do cuidado dos filhos e das pessoas dependentes sem o reconhecimento social pertinente, embora só seja polo que poupa a administraçom em prestaçons socias.

Os meios de incomunicaçom, aliados do patriarcado e da glotofaxia espanholista, seguem discriminando à mulher e ampliando os estereotipos e as desigualdades, já desde a infáncia, por exemplo através de joguetes “de chicos” (umha bola, umha pistola de joguete, cromos de futebol...) e joguetes “de chicas” (Barbye, cozinhas, jogo de pinturas e maquilhage...). O aborto e a sua despenalizaçom até as doze semanas foi o último exemplo de campanha criminalizadora da mulher e o feminismo, já que os “guardiáns” da boa moral oponhem-se ao «nós parimos, nós decidimos» in nomine dei. Coma nos bons tempos, «Santiago, y cierra España»[2].

Francisco Rodrigues Sanches num artigo de 1992 intitulado «Conflito cultural e idiomático na Galiza» analisa desde umha óptica marxista a dupla prostraçom, da língua e do povo, que se dá na nossa naçom, a qual pertence a periferia, a «outra Europa» de que já falava Lenine no seu livro O imperialismo: fase superior do capitalismo.

Para o ferrolano [1998: 180] «queren convencer-nos de que non existe problema, porque agora xa existe liberdade individual para expresar-se no que a cada un lle pete. Desta forma, o que é un problema social e colectivo, da estrutura de poder, deixa-se cinicamente a que os indivíduos que están inseridos nesa estrutura de poder, ousen só por propria vontade trastocar. Non se cambian as regras de xogo. Se un non xoga desta maneira é simplesmente porque libremente non quer. Pero, nesta, como en tantas outras problemáticas, nos existe a liberdade individual». Tamém nos querem convencer de que a mulher já tem atingido a igualdade e que as luitas feministas estám fora de lugar no actual “sistema de liberdades” da “democracia espanhola”. «Que todo quede atado y bien atado» deixou dito o ditador antes de morrer.

O histórico dirigente da UPG assiná-la que a diglossia reformulou-se, assi como o machismo se tem disfarçado através de atitudes compensatórias que, no entanto, em nada mudam o status quo do espanhol e do home respectivamente, assi como as esmolas das ONG's e dos estados ricos nom mudam a correlaçom Norte-Sul porque nom se lhes devolve a propriedade sobre os meios de produçom nem sobre os recursos naturais:

A sociedade galega necesita, hoxe máis que nunca, armar-se contra unha ideoloxia dominante empeñada en que aceitemos como única via para o noso país un papel subordinado, case inexistente: sermos agradecidos, porque non pasamos fame e temos a sorte de pertencer a un mundo que se considera o centro previlexiado. Pero sabemos que non existimos, como tal, especificamente, con direitos próprios, dentro da expansión cultural eurocéntrica. Todo o máis, no campo cultural; velai a grande tarefa encomendada á Xunta, crermos que a apariéncia – libros, Tv, rádio, festas..., teórica e limitadamente en galego– son a realidade. Mentres, os demais, outros, deben opinar por nós. A estrutura vai por unha banda, e a superestrutura cultural, e con ela a língua e cultura próprias que subsisten sen o esforzo por unha pragmática próprias, en todos os campos: o económico, o político, o cultural, o informativo, o educativo... A resignación como único mundo posíbel é a aceitación dunha esquizofrénia que nos manterá nunha contradición constante entre o desánimo, e a política de ilusións, de fantasias. Non pode existir nada máis triste nen perigoso para os povos asoballados que acreditar na política de ilusións, moito máis, cando son imperiais, externas, ditadas con total desprezo polos nosos direitos e os da maioria da Humanidade [Rodríguez Sánchez, 1998: 183].

Castelao no Sempre em Galiza (1944) advogava igualmente pola necessidade de junguir arredismo e nacionalismo lingüístico e defende a liberdade para todas as pátrias como o fai Ramom Vilar Ponte em «O sentimento nacionalista e o internacionalismo» (1926). Em todo caso, acreditamos que na Galiza o «etnocídio», de que falava o Beiras[3], ou o «crime de lesa cultura», de que falava Castelao, sobrevive do mesmo modo que o patriarcado se mantém ainda que sob umhas aparências remoçadas e com tácticas anovadas. O mesmo cam com distinto colar. Nom se proibe a língua fora do fogar, onde devia estar junto à mulher no franquismo, mas agora defende-se o “bilingüismo” e quando se ponhem em teia de juízo os privilégios do home ou do castelhano entom lançam-se os “cides” e os “santiagos mata-mouros”, os mercenários e sipaios do espanholismo, a falar de imposiçom, quando o único que se pode registar som séculos de opressom de género, nacional e lingüística galega. Os novos movimentos fascistas, o neo-fascismo, fam do espanholismo a sua firme e enérgica bandeira, negando-lhe ao galego, à mulher e ao operário que som sujeitos com direitos colectivos e mesmo na esquerda espanhola esta nacionalismo tem vigorado desde a II República soterrando definitivamente o federalismo pimargalliano embora neste o único referente nacional – ao menos numha etapa inicial- fosse Espanha:

Resulta lastimoso que se fale de imposición cando se trata de restaurar (só simbolicamente) o rostro real do país, desfigurado por unha imposición secular [Rodríguez Sánchez, 1998: 166].

Para pôr fim a isto é imprescindível exigir umha dupla independência que só se pode acadar desde a desalienaçom popular, quer dizer, fazendo realidade aquela máxima de Castelao de que «o povo só se salvará quando deixe de ser massa». Dumha banda Galiza deve-se arredar do Estado burguês espanhol da II Restauraçom bourbónica e caminhar ceive e dona de si, para balizar a sua língua e regenerá-la achegando-a todo quanto for possível, sem perder os traços de seu, ao português com o galho de alcançar a unidade primigénia e histórica galego–portuguesa; doutra banda, um novo sistema sócio–económico deve trair a fim dos preconceitos lingüísticos e machistas que vigoram na sociedade patriarcal de Ocidente. Quando definimos capitalismo “imperialista” e “patriarcal” som adjectivos inerentes assi como a alienaçom e o fetichismo da mercadoria é umha característica intrínseca das sociedades capitalistas:

Existe um grave problema, e eu penso que o povo nom tem muito que dizer ao respeito. E vou pôr vários exemplos: democraticamente nom se pode chegar à conclussom de que 2+2=6, por muito que o diga a maioria. O facto de que umha maioria apoie um feito, nom quer dizer que seja científico nem verdade. Na Galiza: se se lhe perguntar a um camponês ou se lhe di que escreva em galego “MINHO” el escrevera com “ñ”, pois tem sido alfabetizado em espanhol. Por isso na Galiza o problema [da planificaçom lingüística] é muito mais complexo do que parece.

[...]

O que define a situaçom da Galiza é umha alienaçom e para o poder é fácil agir sobre esta esquizofrenia histórica, impondo os interesses económicos, que manipula o sentir dos galegos, que dificulta a descolonizaçom dos espíritos e que manipula até o sentimento lingüístico dos falantes [Peeters, 1991: 88-9].

1.2. Paralelismos entre a discriminaçom lingüística e feminina na naçom galega. Exemplos literários.

Desejamos começar este ponto botando mao dum texto literário que ilustre qual é que era a situaçom da mulher durante boa parte do século XX, sobrevivendo ainda em muitos países e mesmo em Ocidente, e como fôrom as próprias mulheres desde a sua luita abnegada as que conseguírom, aos poucos, ir revertendo a situaçom[4]:

Dérom-me umha folha torpemente impressa em que se olhava umha mulher espida imitando a posse dumha estatua grega. Na contra-capa lia-se:

“O home pobre e trabalhador acha-se oprimido polo que é rico e nom trabalha; mas a este home fica-lhe ainda o recurso, bem triste por certo, de vingar-se da opressom que sofre, oprimindo por sua vez a fêmea que lhe tocou em sorte; a esta fêmea nom lhe fica já nengum meio de desafogo, e tem que resignar-se a padecer a fame, o frio e a miséria que origina a exploraçom burguesa e, como se isto fosse pouco, a sofrer a dominaçom bestial, inconsiderada e ofensiva do macho. E estas som as mais felizes, as privilegiadas, as filhas mimadas da Natureza, porque existe trinta ou quarenta por cento de mulheres que som muito mais infelizes ainda, já que a nossa organizaçom social, até lhes proibe o direito a ter sexo, a ser tais fêmeas, ou, o que é o mesmo, a demonstrar que o som.

>> OU, A MULHER! Eis a verdadeira vítima das infámias sociais; eis o verdadeiro objecto da missom dos apóstolos generosos [Mendoza, 1975: 410-11].

A génese da exploraçom da mulher e do patriarcado é descrito, desde umha óptica marxista, por Iñaki Gil de San Vicente [2009: 4]:

La obtención de energía requiere en la especie humana de un trabajo consciente que no tiene otro sentido que el de reducir el esfuerzo, reducir en lo posible el tiempo necesario para obtener dicha energía mediante el desarrollo de herramientas y de técnicas adecuadas, en suma, de fuerzas productivas. En la medida en que aumentaba la población y se agotaban los recursos meteriales, los grupos humanos desarrollaron, como mínimo, cuatro alternativas: emigrar a otros espacios, aumentar su productividad con mejores herramientas, aumentar el tiempo de trabajo total del grupo y robar los recursos de otros grupos. Las formas más simples y rudimentarias de violencia surgen en este largo período, y son las mujeres las que primero sufren las consecuencias, pasando do ser un sexo-género clave que aporta la mayoría de las energías y que produce la mayoría del conocimiento, a ser el primer grupo humano explotado por otros grupos humanos.

Em Ab urbe condita, Tito Lívio dá-nos umha amostra perfeita do nascimento da escravatura em Roma. A opressom sobre a mulher e a orige dos escravos em mulheres doutros povos vê-se com nitidez no conhecido como «rapto das sabinas». Logo, a escravatura passaria à infáncia e, finalmente, a homes e anciaos. Ainda hoje a mulher segue a ser a principal geradora de energias, sofrendo a opressom de género e ainda a exploraçom sexual, a escravatura sexual por milhons. Como indicava Plauto «homo homini lupus», mas, sobretodo, o home é um lobo para a mulher, já desde a civilizaçom greco-romana «base de la civilización occidental, se cimentó sobre el más inhumano terrorismo masivo aplicado gracias a una aplastante superioridad militar» [Gil de San Vicente, 2009: 5].

A alienaçom e o fetichismo som violências invisíveis aplicadas sobre a mulher e a língua – preconceitos. A cultura e o ser humano passam a ser no capitalismo simples realidades mercantilizadas, e a humanidade anula-se convertendo-a em força de trabalho, umha mercadoria, como a natureza, que se compra e se vende no desejo de converter o máximo valor de cámbio possível e inçar assi a acumulaçom de capital. Nem que dizer tem que quando os explorados se safam da alienaçom entom a violência do estado burguês actua para reprimir e manter o status quo de cada classe social.

Durante a II República a educaçom polira-se e promocionara-se. Aliás, a Constituiçom de 1931 contemplava um ensino gratuito, laico e universal – obrigatório–, que contemplava já a ensinança mista sob os princípios pedagógicos achegados, essencialmente, pola Instituiçom de Livre Ensinança[5] e com a criaçom de numerosas bibliotecas no rural galego. Porém este modelo vai sucumbir desde 1936 com a depuraçom de mestres e livros e com a valoraçom da ensinança mista e os valores pedagógicos republicanos como próprios da anarquia e a libertinage.

A co-educaçom suprime-se porque havia que formar umha mulher para deus, a pátria e o fogar e «esta nova muller debía de servir de correa de transmisión do ideario do nacional-catolicismo ás novas xeracións» [Freitas Juvino, 2008: 485]. Daquela, a submissom ao home e à sociedade eram as ideias–chave da educaçom feminina e socialmente as mulheres eram quase invisíveis. As primeiras mulheres ligadas com a cultura galega irrompem nos anos cinqüenta (Maria Marinho, Pura Vásquez, Mª do Carme Kruckenberg, Luz Poço Garça, Joana Torres, Maria José Queizám...).

A repressom da língua galega foi tamém com muito maior na mulher. Árias Lopes no número 29 de Grial confirma que o abandono do galego é superior entre as mulheres, assi como os preconceitos, pois isso reflectia o inquérito que realizara naquela altura e em que eram mais as mulheres opostas ao ensino do galego:

As actitudes de receo pra a língua galega no insino – e mesmo fora do insino–, dentro de Galicia, son moito máis abondosas e afogueiradas nas mulleres que nos homes. Nen penso que debamos esixir responsabilidades ás donas galegas polo seu anoxamento da nosa língua. Mais ben, entendo que elas son víctimas [Freitas Juvino, 2008: 487].

Atinadamente, Jesus Alonso Montero [1973: 125] atribui este maior abandono do galego na mulher a sua condiçom de género oprimido, quer dizer, à tripla discriminaçom de que já falamos: como mulher, como galega e como trabalhadora. A alienaçom é, portanto, maior e o fetichismo tamém:

Cualquiera que sea la clase social, quien más se entrega a los valores externos, a los valores suntuarios y de apariencia, es la mujer, y ello se debe a su condición de ser enajenado, de ser más alienado que el hombre.

A alienaçom e o fetichismo da mercadoria som, na teoria marxista, aquelas situaçons em que o oprimido acredita ser livre e, aliás, acha que as mercadorias tenhem qualidades humanas, enquanto as pessoas reduzem-se a simples objectos, mercadorias, por exemplo na prostituiçom. Mas, a alienaçom e o fetichismo rematam por reduzir ao próprio indivíduo, nos seus esquemas mentais, a umha mercadoria sem valor, a “cousificaçom extrema”, quer dizer, as causas som vistas como os efeitos e os efeitos como as causas, de modo que a submissom ao sistema é total, máximo porque estamos perante umha violência psicológica e nom física, a fórmula preferida do terrorismo burguês. Em efeito, a guerra de género é a primeira fase da guerra social que nas “democracias” aplica a classe burguesa para o controlo da classe trabalhadora e para a perpetuaçom do sistema.

Desde umha perspectiva feminista tem exposto a discriminaçom correlativa mulher–galego Mª José Queizám dumha forma espantosamente castigada. Segundo a escritora a mulher e a língua sofrérom e sofrem um processo paralelo de desvalorizaçom e submetimento como recolhe em «A lingua galega e a muller», artigo que se recolhe no livro de 1977 A muller en Galicia: análise estrutural de dos feitos represivos. Neste volume bosquesage um paralelismo nídio entre a repressom sofrida polo galego e a padecida pola mulher: «Estamos no ambiente do racismo e a opresión». Freitas Juvino [2008: 489-490] explica assi as achegas de Queizám:

Parte da situación de convivencia diglósica na que se atopa o galego no seu propio país (...) dunha maneira similar ao que ocorre coa muller que, na dicotomía muller/home, sempre se atopa nunha posición xerárquica inferior. Unha lingua, o castelán posúe prestixio social e o galego non; igualmente, o home posúe dentro da sociedade un status superior, o que lle confire prestixio en contraposición á muller, que carece del; así, os homes son máis valorados polo poder e o prestixio que posúen e as mulleres polos seus valores persoais.

Os preconceitos, maiores nas mulheres pola maior opressom a que estám submetidas, relacionam-se com a alienaçom ou, em palavras de Queizám, com o assobalhamento ideológico. A mulher tenta emular as normas e critérios do bando masculino o que reforça a tendência dos galegos, froito do auto-ódio, a emular a língua do opressor:

Non se analizan as circunstancias históricas que provocaron unha e outra situación, simplemente acéptase e dáse por feito que ten que ser así. O galego é unha língua “inferior” debido ás súas características intrínsecas, e o mesmo lle ocorre á muller, que é inferior ao home porque a natureza o quixo así [Freitas Juvino, 2008: 490].

Aliás, o castelhano associa-se com a épica, a valentia e a agressividade –coma os “machos”- e as línguas periféricas, nomeadamente o galego, com a lírica, a beleza, a doçura, o intimismo... A primeira é a língua dos conquistadores a segunda «un patrimonio cultural que será objecto de especial respecto y protección» como recolhe a Constituiçom de 1978, ou seja, retórica burguesa barata made in Spain como outros tantos artigos como o 17, o 20, o 22, o 27, o 31 ou o 35, apenas por citar alguns que se violam sistematicamente. Logicamente, «todos los españoles tienen el deber de conocerla y el derecho a usarla», enquanto que o conhecimento do galego é acessório, secundário ou “complementário” como o é a mulher desde a Génese bíblica [2; 21-24], feita Eva a partir da costela de Adám:

Entonces Yahvé Dios hizo caer un profundo sueño sobre el hombre, que se durmió. Y le quitó una de las costillas, rellenando el vacío con carne. De la costilla que Yavhé Dios había tomado del hombre formó una mujer y la llevó ante el hombre. Entonces éste exclamó:

“Esta vez sí que es hueso de mis huesos y carne de mi carne. Ésta será llamada mujer, porque del varón ha sido tomada”.

Por eso deja el hombre a su padre y a sua madre y se une a su mujer, y se hacen una sola carne[6].

A associaçom da Galiza e da sua língua nacional com o feminismo é mui antiga. Miguel de Unamuno no seu ensaio Por tierras de Portugal y de España (1903) expom numha descriçom sua tipicamente barroca:

Las esquinosas sierras, tal como surgen de las roturas y levantamientos, se han ido hundiendo y desmoronando en montes terrosos y chatos, de contornos ondulantes y sinuosos, como de senos y caderas mujeriles, a la vez que han ido rellenando los valles y vagüeras. (...) Y luego la frondosa cabellera de castaños, pinos, robles, olmos y cien otras castas de àboles, abriendo aquellas redondeces y turgencias, dan al paisaje un marcado carácter feminino (...). Es un país feminino [Freitas Juvino, 2008: 490-1].

Esta descriçom da Galiza e as suas virtudes femininas opom-se às virtudes de Euskal Herria, masculinas por suposto, de onde Unamuno era nativo e para reforçar a necessidade de englobar Euskal Herria no Estado espanhol de acordo com a sua ideologia espanholista:

¿Que és eso de ser invasores? ¿No lo somos nosotros? Si no queréis ser invadidos, invadid; sino queréis que os absorban, absorbed; todo menos cerrar las válvulas y permanecer aislados. No guardéis una absoluta virginidad de raza que nos prive de la maternidad, de la paternidad más bien. Padres, sí; que en este inivitable y fecundo encuentro de pueblos seamos el varón y no la la hembra [Freitas Juvino, 2008: 491].

O trecho é indubitavelmente ilustrativo de por si só. Assi, hai povos e línguas “machos”, conquistadores, imperialistas e povos “fêmea” que só estám para ser fecundados, para a funçom reprodutiva, e ainda agradecer pouco menos que haja tam “nobres” impérios que os colonizem e oprimam. Castelao no Sempre em Galiza critica estes preconceitos sem tapulhos:

Afetá que a paisaxe galega é femia porque ten formas redondeadas! (...) Isto é debido á dureza granítica do chan, mais a pesar de todo Galiza é un país moi sério e moi redondo, como é o mundo; sen arquitecturas de escaiola e sen ceos de añil barato.

Xusto é que lle chamemos Nai â nosa Terra (tódalas Terras son Nais); e admitiríamos que Castela fose “macho” - tal arelan os casteláns– se non estivéramos vendo a súa estraordinaria fecundidade; pero non creemos que un pobo sexa mais macho que outro polo feito de volver dunha guerra e amostrar o seu coiro cheo de cicatrices[7].

E quase no começo do seu emblemático livro afirma que Galiza é antes de mais mátria, concretamente afirma que «para nós, os galegos, a Terra (así, con maúscula) é Galiza. O que nos xunta n-unha comunidade espritual é, principalmente, o amor â Terra. E cando decimos “a nosa Terra” queremos decir “a nosa Nación”. A Terra é a Matria» [Castelao, 1944: 40]. Maria José Queizám fala com acerto de «duplicidade compensatoria», a qual consiste numha falsa idealizaçom da língua galega ou da mulher que se opom à denigraçom do home e do castelhano, «pero esta é unha condena hipócrita, porque tanto o castelán como o home seguen simbolizando o poder e o prestixio. Este último é o idioma dos que dirixen a sociedade e o home segue acaparando e mandando na política, na cultura e na economía. (...) A idealización compensadora: a fermosura, o lirismo, o sentimento. Igualmente, as mulleres compensan a súa situación de subordinación ao home adxudicándolles calidades como a intuición, a comprensión, a paciencia etc.» [Fretias Juvino, 2008: 492-493]. Assi, o galego é umha língua preciosa e formosa, como a mulher, doce e que soa bem. O castelhano abonda-lhe com o seu prestígio social e a sua masculinidade.

Tamém existe a idealizaçom da pureza. O castelhano enriquece-se com empréstimos, o galego deturpa-se, porque o galego deve ser 'puro', casto como a mulher, e deixar a promiscuidade para o castelhano. Isto é especialmente significativo quando se ataca a regeneraçom do galego através do português enquanto se gaba a unidade do espanhol argentino e peninsular e a mestiçage do conquistador com o conquistado.

Pilar Garcia Negro falará de «técnina home-opática», segundo a qual é permitido um mínimo de toleráncia com os direitos da mulher e do galego para manter o status quo do home e do castelhano, quer dizer, voltar à máxima de Carlos III e do absolutismo “ilustrado”: mudar algo para que rem troque. Esta técnica engloba tamém a auto-xenreira, causa fulcral do processo de substituiçom lingüística supostamente mais visível entre as mulheres, já que a pretendida igualdade de línguas é igual que a fictícia igualdade de sexos. Noutras palavras, nega-se o conflito lingüístico mediante um falso e inexistente bilingüismo (social) que actua de “unisexo”, como se fai ao atacar à mulher na publicidade e a televisom sob o escudo de que tamém empregam a homes, ou seja, igualdade “unisexo” na denigraçom das pessoas e na image dumha mulher que deve ser perfeita, jovem, parva e entregada ao sexo – ou a satisfaçom do outro sexo mais bem–, a mulher-floreiro.

A mulher abandona a língua como quando tratam de imitar os homes por avergonhar-se de pertencer a um sexo “inferior”. Neutralizam o conflito fugindo del e da responsabilidade de defender os seus direitos e os das demais mulheres. Pilar Garcia Negro fai um resumo genial da analogia entre o patriarcalismo político e o lingüístico [Freitas Juvino, 2008: 495-496]:

a.- As duas fôrom reduzidas a um papel secundário e subalterno, embora houvesse umha evoluçom desde negar a existência de alma nas mulheres até o reconhecimento idealizado de valores da mulher e o galego (intuiçom, formosura...).

b.- Os sectores assimilistas e sexistas, como Galicia bilingüe, empregam recursos variados para perpetuar a discriminaçom, mas aparentando que se fomenta a igualdade e a defesa dos discriminados.

c.- A táctica homeopática, da que já falamos. Outorgam-se direitos com tal que nom se exerçam e quando estes podem finalmente exercer-se lançam-se campanhas demonizadoras, como a que se opunha a despenalizaçom do aborto ou a que atacava a suposta “imposiçom” do galego. E encobre-se com “discriminaçom possitiva” a falha absoluta de actuaçons para alcançar a tam arelada igualdade.

d.- O “complexo de embaixada”. Umha das principais arelas de qualquer ideologia discriminadora e colonizadora é conseguir a internalizaçom da segregaçom por parte dos próprios afectados. Expressou-no verazmente Chomsky em numerosas ocasions ao referir-se ao controlo da opiniom pública para fazer das eleiçons simples farsas na democracia burguesa.

e.- A “síndrome de Estocolmo”. As pessoas reprimidas sentem-se atraídas, hipnotizadas, polos seus opressores.

f.- Espaço privado / espaço público. O galego é umha língua oral, familiar e rural, o castelhano pola contra é língua oficial e dos ámbitos públicos. A mulher para as tarefas do fogar e os homes na cantina, a guerra e os prostíbulos.

No entanto, a língua galega foi ganhando terreno na vida pública assi como a mulher se fai inserindo na vida laboral. Porém nom é menos certo que o castelhano segue a ser a língua de mais prestígio, urbana, de profissons liberais e associada com o poder e o dinheiro. Tamém os directivos adoitam ser homes e os ordenados femininos som 30% inferiores aos masculinos, para além de que se ouve amiúdo o de nom se pode contratar umha mulher pola baixa por maternidade. Para umha e para outra receita-se discriminaçom possitivo, eufemismo que encobre à perfeiçom a existência mesma da desigualdade e camufla de bondadosos e dadivosos aos que em realidade som em exclussiva verdugos. Nom hai discriminaçom possitiva que vala, apenas umha luita entre os opresores e os oprimidos o resto é fumo de palhas.

1.3. Coda

Como conclui Freitas Juvino [2008, 498] a língua galega só se salvará se assi o decidem as galegas e os galegos adoptando atitudes de luita e compromisso lingüístico. O mesmo é aplicável à mulher, que deve assumir a sua valia em pé de igualdade com o home, exercendo a sua plena “autodeterminaçom”, já que ao igual que nom hai rem na estrutura interna que faga umha língua superior a outra, tampouco hai nada no ser humano chamado home que o faga superior ao ser humano chamado mulher, a contrário, o patriarcalismo fai dos homes os máximos responsáveis das atrocidades e barbáries cometidas ao longo da história.

A cultura heterocéntrica e patriarcal nom deve deixar de ser revisada em todo momento e atacada sem piedade. O falocentrismo, que nom deixou de aumentar nos últimos decénios, é ao tempo a expressom da debilidade masculina, polos complexos inúmeros que o cánon do ideal criou. Agora tem chegado à mulher umha versom ainda mais deturpada deste feito. O porno é o modelo que criar cánon em inúmeros jovens com o conseguinte trastorno e distorçom da realidade: se nos 90 causavam furor as tetas de plástico de Jena Jameson e Nacho Vidal era o referente masculino, no XXI causam furor as operaçons vaginais na procura da cona “perfeita”. A alienaçom sexual está a chegar no primeiro mundo a limites até fai umha décadas insuspeitados e enfermidades como a anorexia e a bulímia dam igualmente fé disto, quanto ao cánon estético.

O culto ao corpo perfeito e a mocidade era umha das máximas do nazismo, polo que nom é por acaso que parelho a estas aberrraçons ince a genofóbia e a discriminaçom, embora nalguns casos tenha um rosto novo.

Por último, lembrar que tamém os homes somos vítimas do patriarcado e das suas estruturas. Neste sentido, o feminismo “exclusivista” que se cinge só à mulher e impede a participaçom do home evita que os homes mais conscienciados com a causa da igualdade podam “despatriarcalizar-se” corectamente, respondendo a necessidades inconscientes criadas polas técnicas grupaloides, adoito exploradas na publicidade e a propaganda política. O apoio do home é vital para lograr a vitória na guerra dos sexos, já que nom som poucas as mulheres afectadas pola “síndrome de Estocolmo” e a táctica homeopática de que antes falavamos. Vós, as mulheres devedes encaminhar a luita pola igualdade em cada umha das frentes sociais em que actuades, fazê-lo fechando-se em pequenos grupúsculos e de costas ao mundo tem sentido em determinados processos históricos, mas acho que nom é mais que firmar a acta de perpetuidade do patriarcado na actualidade. Coerência, consciência, formaçom, constáncia e incidência social som as chaves da vitória, tanto para a mulher como para a língua.

Antom Fente Parada, Santa Cruz de Viana, 2009.

BIBLIOGRAFIA

ALONSO MONTERO, Xesús (1973), Informe – dramático– sobre la lengua gallega, Akal: Madrid.

CASTELAO, Afonso Daniel Rodríguez (1944), Sempre en Galiza, Akal: Madrid, 4ª ediçom, 1994.

FREITAS JUVINO, María Pilar (2008), A represión lingüística en Galiza no século XX. Aproximación cualitativa á situación sociolingüística de Galiza, Xerais: Vigo.

GIL DE SAN VICENTE, Iñaki (2009), La violencia y lo militar en Marx. La combinación de todas las formas de lucha, Euskal Herria, http://www.lahaine.org

KAMEN, Henry (2006), Del imperio a la decadencia. Los mitos que forjaron la España moderna, Temas de Hoy: Madrid.

MENDOZA, Eduardo (1975), La verdad sobre el caso Savolta, Six Barral: Barcelona.

PEETERS, Yvo JD (1991), editor, Poder, ideologia e língua, Associaçom Galega da Língua: A Crunha.

RODRÍGUEZ SÁNCHEZ (1998), Conflito lingüístico e ideoloxia na Galiza, Laiovento: Compostela.



[1] Aqui nom se contam, por suposto, os analfabetos funcionais que som inúmeros no “mundo civilizado”. Na Galiza seis de cada dez galegos afirma nom ler NUNCA e muitos som incapazes de desenvolver as técnicas de leito-escritura com correcçom, já nom entrando na interpretaçom do sentido dum texto onde o número se inça até cifras estremecedoras. Isto todo em espanhol, naturalmente. Para o galego o número de analfabetos funcionais quiçais supere 60% da populaçom. Isto naturalmente convém a quem detecta o poder, pois de pouco serve a “liberdade de imprensa” se as mensages nom som compreendidas nem apreendidas pola massa submetida.

[2] Esta citaçom, com umha ilustre prosápia, é um bom exemplo da manipulaçom histórica do espanholismo. Autores como Pérez-Reverte, por exemplo em Las aventuras del capitán Alatriste, apresentam-na pouco menos que como umha afirmaçom da naçom espanhola já na Idade Média (quando o conceito de naçom tal como o entendemos hoje data do século XIX e das revoluçons burguesas). Na realidade nem existiu no imperial Reino das Espanhas como umha única arenga nem sequer se vencelhava com a naçom no sentido moderno, mas apenas com a procedência geográfica e no caso dos estrangeiros com a coroa a que serviam:

«Durante las guerras italianas, alrededor del año 1500, todos los soldados al servicio de los tercios estaban obligados a utilizar el grito de guerra “Santiago, España”. Los cronistas castellanos narraron que, en la batalla, los soldados cantaban “¡España, España!” y “España, Santiago” a medida que se lanzaban contra sus enemigos. Puede ser que ni siquiera hayan conocido el significado de esas palabras, pero era una frase que los ayudaba a concentrar su ferocidad.

Durante los siguientes cincuenta años, el grito de guerra “¡Santiago, España!” comenzó a escucharse en toda Europa. Lo utilizaban todos los soldados que peleaban en nombre de España, ya fueran castellanos, italianos, alemanes o flamencos. Vale la pena hacer hincapié en este punto, debido al malentido generalizado de que las tropas gritaban por España por el hecho de estar compuestas por españoles. Dada la composición internacional de los ejércitos de España, la verdad es que la mayoría de las veces no eran españoles los que la aclamaban. Los gritos de guerra “¡Santiago!” o “¡Cierra España!” no eran prueba de que las tropas tuvieran sentimiento alguno por la nación española. En la batalla de Mühlberg, en Alemania, en 1547, la deslumbrante caballería húngara del ejército imperial tuvo que elegir entre los gritos de guerra oficiales alemanes y españoles, y en vistas de su antipatía por Alemania, no dudaron en elegir gritar “¡España!” al arremeter contra sus enemigos en la batalla» [Kamen, 2006 : 50-51].

Lembre-se igualmente que até o século XVII Espanha era sinónimo de Península Ibérica porque ainda guardava o sentido do Hispánia romano.

[3] Em vários dos seus artigos indica isto, nós remarcamos o recolhido no discurso sobre o estado da naçom galega de 5 de Novembro de 2004, intitulado «15 anos de goberno do PP, 15 anos perdidos».

[4] Na II República, por exemplo, atingiu-se o Sufrágio Universal com a incorporaçom da mulher nas eleiçons de 1933, jogando um papel crucial na sua aprovaçom as deputadas Victoria Kent, Margarita Nelken e Clara Campoamor. Antecedentes tinham-nos nos postulados do federalismo burguês mais radical do XIX, embora fosse um sufrágio que exigia um nível de estudos que mui poucas mulheres tinham na altura – o que nom se lhe exigia aos homes curiosamente, ou nem tanto-. A traduçom do trecho literário é nossa.

[5] Trata-se dum instituto criado na metrópole, Madrid, segundo o estipulado polo real decreto de 16 de Agosto de 1876 e orientado, num princípio, a ensinança secundária. Os seus estatutos aprovam-se a 31 de Maio de 1876 pola acçom de professores e intelectuais apartados da ensinança polo Decreto Orovio de 1875. Entre os seus integrantes topavam-se Francisco Giner de los Ríos, Nicolás Salmerón, Azorín, Antonio e Manuel Machado, etc., que logo seriam os predecessores do krausismo. Quanto instituiçom, ensaiou a aplicaçom do neutralismo religioso e ideológico, a coeducaçom e os métodos pestalozzianos e froebelianos, que conduzírom à renovaçom da ensinança meia e superior influindo na reforma escolar republicana e na organizaçom e posta em marcha da Residência de estudante de Madrid, em que coincidiriam Buñuel, Dalí ou Lorca. Logicamente, a Guerra Civil esborralhou todas estas experiências.

[6] A cultura judia, e portanto tamém a cristá nada dela, é fortemente patriarcal como tem retratado Saramago no seu Evangelho segundo Jesus Cristo. Hai muitas passages bíblicas lesivas para com a mulher que se explicam polo contexto social em que esses textos fôrom produzidos e o Deuteronómio é um autêntico código legislativo da época onde se recolhem herdanças doutras civilizaçons como a mesopotámica: «vida por vida, ojo por ojo, diente por diente, mano por mano, pie por pie» (19; 21). Umha destas passages di «si un hombre toma una mujer y se casa con ella, y resulta que esta mujer no halla en gracia a sus ojos, porque descubre en ella algo que le desagrada, le escribirá un acta de divorcio, se la pondrá en su mano y la despedirá de casa. Si después que ella ha salido y se ha marchado de casa de éste se casa con otro hombre, y luego este segundo hombre la aborrece, le escribe el acta de divorcio, se la pone en su mano y la despide de su casa; o si se muere este otro hombre que se ha casado con ella; el primer marido que la repudió no podrá volver a tomarla por esposa después de haberse hecho ella impura. Pues sería una abominación a los ojos de Yavhé, y tú no debes hacer pecar a la tierra que Yavhé tu Diós te da en herencia» (24; 1-4).

[7] Citado por Freitas Juvino [2008: 491-2].Noutras passages nom parece tam afortunada a sua escolha léxica – compreensível polo contexto histórico-. Por exemplo no capítulo XXIV do livro terceiro recolhe-se:

«Hoxe o irrintzi vasco, o renchillido montañés, o ijujú astur, o aturuxo galego e o apupo português están vencidos pol-o afeminado olé... Pois ben; os galegos (...) somos a antítesis da golferancia e do señoritismo, da gitanería e do toureirismo. Que resucite a Castela asesiñada en Villalar. Que Castela deixe de ser o que Antonio Machado lle botou en cara: “Castilla miserable, ayer dominadora, envuelta en sus andrajos, desprecia cuanto ignora”. Entón Castela sería cicáis unha Hespaña, e con ela nos entenderíamos. Cos golfos e os señoritos non» [Castelao, 1944: 367].

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Novo espaço na rede do Encontro Irmandinho focando a XI assembleia nacional de Galiza Nova e a nossa postura

Um outro mundo é possível, umha outra Galiza Nova e necessária. Assi reça o cabeçalho do novo blogue onde nos expressaremos os que apoiamos a postura do Encontro Irmandinho na XI assembleia nacional de Galiza Nova com três piares básicos e clássicos: esquerda, socialismo e autodeterminaçom.


http://revoltairmandinha-en-galizanova.blogspot.com/



Umha aperta irmandinha e à revolta!


ANTE A ASAMBLEA NACIONAL DE GALIZA NOVA

Nos últimos tempos, especialmente neste periodo interasamblear 2007-2009, Galiza Nova deixou de ser un referente de organización xuvenil transformadora entre a mocidade; xa non é un proxecto ilusionante e revolucionario no que militar dende que se converteu nunha comparsa do BNG no goberno da Xunta de Galiza.

@s moz@s do Encontro Irmandiño, entendendo que no proxecto de emancipación nacional e social de Galiza e fundamental que o nacionalismo volva axir entre a mocidade, analizamos as seguintes eivas de Galiza Nova e as cuestións fundamentais que, ao noso xuízo, deben ser debatidas.

1. Divorcio entre a mocidade transformadora do país e Galiza Nova, resultado da subordinación da organización ao BNG no goberno da Xunta e da moderación dos principios ideolóxicos e políticos, o que produciu escasas campañas nacionais, baleiras de contido.
2. Necesidade dunha organización transformadora entre a mocidade galega que interactúe e dé voz aos movementos sociais.
3. O nacionalismo debe recuperar o seu protagonismo na loita estudiantil, nomeadamente contra a mercantilización do ensino que supón o Plan Boloña.
4. Unha organización con verdadeira vocación de emancipación nacional debe poñer acento na formación sobre as consignas; debe facer pedagoxía revolucionaria e fuxir da retórica vacua e as técnicas de marketing, propias do sistema neoliberal que hai que combater con maior énfase.
5. Desastre organizativo en Galiza Nova. Hai comarcas sen apenas actividade organizativa, non hai un sistema regularizado de cobro de cotas, non existe a transmisión dos acordos nacionais ata as Asambleas Locais, a web nacional fica baleira de contidos …; e todo isto no momento no que a organización conta co maior número de liberados da súa historia.
Cómpre cambiar decididamente este modelo verticalista e “profesionalizado” por unha organización horizontal onde a militancia sexa protagonista, non mera maquinaria a mobilizar para os actos electorais do BNG.

Os mozos e mozas do Encontro Irmandiño entendemos esta deriva da organización xuvenil nacionalista no contexto do descrédito da Política por parte da cidadanía, resultado da transformación das forzas políticas en aparatos ao servizo da consecución do poder, estratexia orquestrada polo Capital, que converte así ás cámaras de representantes e ás institucións en instrumentos ao seu servizo, debate que se analizará na Rolda de Rebeldía, proceso que impulsa o Encontro Irmandiño para procurar un referente político social co que provocar un cambio radical no modelo de sociedade e unha outra Galiza posíbel . [Contacta coa Rolda de Rebeldía: aquí].

A nossa intençom é aproveitar a Assembleia Nacional de Galiza Nova do vindouro mês de Outubro para abrir o debate entre a mocidade galega sobre destas questons, para o qual organizaremos vários encontros e pomo-nos ao dispor das achegas de toda a mocidade com espírito transformador deste país, milite ou nom em Galiza Nova – entendemos que os debates planeados excedem a dimensom interna –, através do endereço electrónico

revolta_irmandinha@hotmail.es

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

I festa arredista na Ribeira Sacra




A XI assembleia de Galiza Nova


Perante a nova assembleia de Galiza Nova a militáncia de Chantada expressamos o desejo dumha remuda total organizativa e política de Galiza Nova para retomar o projecto estratégico tranformador que lhe era próprio no passado. Aliás, expressamos o nosso desejo de formalizar umha cadidatura aberta a toda a militáncia arredor dos membros do Encontro Irmandinho afiliados a Galiza Nova.

quarta-feira, 22 de Julho de 2009

Resumo e avaliaçom dos dous anos coligaçom na Cámara Muncipal chantadina

"Nom se vive celebrando vitórias, mas superando derrotas", Ernesto Guevara de la Serna.

Agora que já vam dous anos de governo municipal PSOE-BNG queremos fazer umha avaliaçom desde Galiza Nova Chantada, para mostrar à cidadania o trabalho dos concelheiros do BNG a prol dumha política de esquerdas que transforma-se o ermo político e a esclerose institucional que deixou como herança o PP e os governos do monolitismo.

É necessário fazer esta avaliaçom porque todos os processos necessitam ser analisados e ainda criticados em política e porque o BNG tem que fazer um esforço, no que resta de legislatura e na próxima se assi lho confiam os cidadaos, por implicar muito mais a militantes, simpatizantes e à cidadania em geral na política muncipal e na toma de decisons que nos atingem a todas e a todos. Aliás, os esforços por enlamar com demagogia a vida institucional do concelho cobrárom novos pulos ultimamente por parte do PP e por isso devemos, mais do que nunca, manter ao tanto à cidadania do que realmente acontece no concelho e nos progressos acadados nestes dous anos de governo. Um exemplo da política do PP, oposiçom destrutiva e nom construtiva, foi a tentativa de apresentar por parte de Susana López Abella umha moçom contra a imposiçom do galego por parte do governo municipal, o que dá fé da política de demagogia e transplante da suja campanha empregada por Núñez Feijoo e ainda por Mayor Oreja nas europeias.

Em primeiro lugar desde Galiza Nova queremos deixar bem pantente que a pesar dos esforços dos nossos concelheiros as mudanças ainda nom atingírom o calado desejado a todos os níveis porque dous anos dam para o que dam, e tamém devido a que o PSOE incumpriu e incumpre sistematicamente o pacto de governo o que converte o trabalho de Olga, Jesus Mazaira e Ildefonso Pinheiro nalgo titánico.
Nestes dous anos o BNG fixo esforços mui notáveis por promocionar ao desporto de base e tamém apoiando aos clubes da nossa vila, por exemplo com o arranjo do Sam Gonhedo do Chantada. Tamém por tecer umha rede de serviços sociais acaída às necessidades do concelho : coma as dos coidadores no entorno social; a incorporaçom da residência e o Centro de Dia ao consórcio de Bem-estar da Junta da Galiza-; Jantar na casa; transporte adaptado; apoio ao emprego feminino e às vítimas do terrorismo machista; icorporaçom da Escola Infantil ao serviço galego ed Igualdade e Bem-estar, com a intençom de convertê-la em Galescola, processo fanado pola nova Junta; promoçom de vivenda pública e emprego para as moças e os moços; moçom em apoio aos gandeiros na sua luita por um preço digno e justo para o leite; apoio ao Banco de Terras, imitado já por Euzkadi e por Croácia; apoio às UXFOR; solidariedade Plataforma polo desenvolvimento sócio-económico de Chantada e a sua legítima oposiçom ao feche da Sidraria Galega que finalmente ficará na nossa vila; ampliaçom do Polígono Industrial (cujo retraso se deve às empresas adjudicatárias e nom é responsabilidade directa do concelho); as obras da ponte do passeio fluvial; as novas fases na construçom do novo concelho (com retraso tamém devido à empresa) saneamento e arranjo das ruas de Viana; saneamentos na ribeira em todos os lugares onde os vizinhos o permitírom; oposiçom ao Plano de Ordenaçom do Território que deixava a Chantada como umha subcomarca; impulso e aposta, na medida das possibilidades e competências do nosso concelho, polo Turismo Rural e por um ensino galego que o PP está a dilapidar; etc.

No eido cultural, o concelho de Chantada está desenvolvendo o Plano de Normalizaçom Lingüística aprovado unanimamente polo Parlamento da Galiza em Setembro de 2004 e apoiando actividades culturais variadas coma: a Subida a Chantada, Barcas do Minho, o Castanhaço-rock, o Foliom de Carros, o Entroido Ribeirao, a Feira do Vinho, o Caminho Sul ou o Festival Consentido por citar alguns exemplos.

O BNG tamém foi o principal impulsor da cobra do cánon hidroeléctrico em condiçons mais favoráveis para a nossa vila e o que defendeu contra um PSOE entregado às directrizes do partido. Mentres o Manuel Lorenzo e o PP o reclamavam em Chantada e votavam que nom com Cacharro na Deputaçom o BNG puxo fim a esta dívida histórica com Chantada. Tamém o BNG defendeu em todo momento a elaboraçom duns orçamentos reais e públicos, a diferença dos aprovados polo PP que permitítom que o nosso concelho ultrapassara os três milhons de euros de dívida após a derrota de Manuel Varela, com espectáculos tam bochornosos coma a suba de impostos de 2005 ou a concessom por décadas a Aquagest das augas da vila.
Nesta direcçom vai o rencente crédito contraído polo Concelho de Chantada (amparando-se no decreto 5/2009 aprovado polo governo central) com o que se financiará por volta dum 20% da dívida pensando em aliviar a situaçom financeira de pequenas e medianas empresas, de PEMES e autónomos. A dívida já fora, aliás, reduzida com o IVI do cánon e hoje ainda alcaça 1.500.000 euros. No entanto, este crédito nom se traduzirá numha suba de impostos para os contribuíntes, mas passa pola contençom do gasto e por poupar em gasoil, gasto corrente, telefonia, etc. até conseguir os 120.000 euros anuais necessários e pagar assi o crédito em seis anos.

Por último, nem que dizer tem que o BNG segue a trabalhar nestes e noutros projectos para afortalar o atractivo de Chantada para as empresas, melhorar a promoçom turística do nosso concelho, inçar a participaçom cidadá e o diálogo social e advogar pola vivenda pública e a criaçom de emprego.

Por todo o dito, consideramos desde Galiza Nova de Chantada que estes dous anos fôrom mui positivos e que o BNG segue a ser o motor do cámbio em Chantada. Contra a política da mentira, a demagogia e a intoxicaçom o BNG apresenta factos e actuaçons concretas. É muito o que fica ainda por fazer, mas tamém nom é pequena a ilusom que a equipa do BNG no concelho e a sua militáncia pom no trabalho diário para alcançar a política e o desenvolvimento que a nossa vila se merecem.

Viva Chantada!





terça-feira, 21 de Julho de 2009

Do 1 de Março ao 25 de Julho: a Galiza e o novo governo

Antom Fente Parada, Julho 2009


Agora que se aproxima o dia da Naçom galega (para nós pátria remete para patriarcado e nom nos serve, por muito que seja umha palavra comum no vocabulário do nosso nacionalismo emancipador) é o momento de comprometer-se mais que nunca e de expressar a dignidade colectiva dum povo que segue em pé e reclamando os seus direitos. Como expugera Beiras no Faro de Vigo (9-11-1983):

Non incurra no erro tan frecuente entre certas xentes do seu entorno de crer que os galegos son estúpida e sempiternamente dóceis, alleos a calquer conciencia de identidade própria como pobo, e dispostos a ler e asumir sen pestanexar todo o que lles escreban sobre eles mesmos desde fóra, por deleznábel que sexa. Poderia levarse un chasco nada grato.


Com mais de cem dias transcorridos após a vitória do Partido Popular na Galiza e logo de mais de cem dias de governo de Feijó, des-governo em todo caso, vai sendo hora ir fazendo balanço a sério sobre as dimensons desta tragicomédia colectiva que se dá numha Galiza profundamente alienada social, cultural e economicamente; quase nada. A labareda erguida pola campanha suja tornou-se com a chuva do 8 de Fevereiro numha lama demagógica da que agora as capas sociais maioritárias deste povo podem palpar bem os resultados. De aquel bulheiro enganoso esta bosta paralítica institucional.

O PP chegou à Junta em volandas pola acçom espantosa, no sentido galego-português do termo, dos média espanholistas e sem mais programa de governo que a desmantelaçom de todas as políticas, sociais ou nom, do anterior governo. Aquelas promessas de Feijó de dar cabo da “crisi”, com el lhe chama no seu portunhol, ficam ainda invisíveis e mesmo os que depositárom o seu voto na sua candidatura começam a hesitar ao ver como a gratuidade universal dos livros de texto é já história, por citar um dos muitos exemplos, e nom falar dos assessores em política sanitária de Esperanza Aguirre que chegam agora à Galiza.

Seica nom hai um peso, argúem os “populares” - que esquecem que o popular está na base da pirámide social e que o seu apenas é populismo-, enquanto ocultam as cifras de milheiros de euros que custou o inquérito-trampa sobre o galego adjudicado a umha empresa valenciana. Seica nom hai peso dim-lhe aos reitores das três universidades galegas, enquanto umha reforma educativa, nefasta isso si e enquadrada no neoliberalismo, se implanta: o Plano Bolonha. Seica nom hai peso di Pilar Farjas, conselheira de Sanidade, enquanto reduze o gasto na pública e aumenta as ajudas à privada; nom iam acurtar as listas de espera até fazê-las quase desaparecer tamém em cem dias? Eis a única política efectiva do novo governo: o ataque e acosso ao galego e aos direitos colectivos que temos como povo.

O povo galego fazendo caso desse individualismo preconizado polo neoliberalismo capitalista, que tanto favorece às famílias dinásticas da II Restauraçom bourbónica, advogou para sair da crise provocada polo próprio neoliberalismo pola rama mais rançosa dos partidos dinásticos espanhóis: os pupilos de Aznar e os Chicago boys. Mentres o paro aumenta e os ERE's inçam por toda a nossa geografia a conselheira de Trabalho e Bem-estar, Beatriz Mato, afirma , em perfeito espanhol que o galego é língua proletária como Celso Emílio nos lembra, estar «muy preocupada por Manuel Jove, que me consta que lo está pasando muy mal con lo de Caramelo». Será entom que as trabalhadoras afectadas, mais de cem postos de trabalho que perigam polo Expediente de Regulaçom de Emprego (ERE), andam polas romarias, que nestes dias tanto abundam na Galiza, botando fogos-de-luzes.

O ataque à língua galega polo espanholismo, que para juntar o 8 de Fevereiro duas mil pessoas tivo que importá-las e que provocou desavenças nos seio do PP como as expressadas por Palmou, Baltar ou o filho de Cuínha, enquadra-se na estratégia espanholista de esborralhar o nosso sinal identitário por excelência, porque eles tamém sabem que «se ainda somos galegos é por obra e graça do idioma» como dizia esse ao que tanto lhe sujam o nome ao pô-lo na sua aborrecível boca os mesmos que o obrigárom a morrer no exílio. Como vam escolher livremente a língua em que querem ser educados se apenas tenhem competência numha, o castelhano? Falem de glotofaxia, nom de bilingüismo por favor, toda vez que o bilingüismo social nom existe, apenas o individual, mas já um nom pretende que compreendam isto, porque isso é pedir-lhe aos bois que arem sós as patacas. O que existe é o conflito lingüístico.

Porém o ataque contra o galego é tamém um ataque contra os seus depositários sociais, contra as classes trabalhadoras deste povo que a mantenhem viva, aos que prometia a demagogia da gaivota um «bilingüismo cordial»: os gandeiros de toda a Galiza na tractorada; os trabalhadores do metal na província de Ponte Vedra luitando polo seu convénio; os trabalhadores de planta de Pascual em Outeiro de Rei contra o ERE, enquanto Feijó se nega a formar um grupo lácteo galego com capital público que tomaria essa planta – seica é intervencionismo na economia e isso é mao e de comunistas-; os de Caramelo com um ERE que ameaça mais de cem postos de trabalho; o quadro de pessoal do Grupo Trevés de Ponte Vedra, que se opom a 133 despedimentos; os trabalhadores da Vidriera del Atlántico em Ginzo... e para rematá-la a revisom do concurso eólico que compromete a criaçom de 8000 postos directos e indirectos e provocará que a Junta da Galiza deixe de ingressar 15 milhons de euros anuais polo seu 14'7% de participaçom (aí está o truco para contentar aos que realmente som depositários das políticas do PP). U-los milheiros de postos de trabalho novos que ia criar em 100 dias o senhor Feijó?

Na greve do metal e na dos gandeiros a estratégia mediática dos aliados do PP e apresentar como delinqüentes aos que luitam por manter um emprego digno e um ordenado que lhes permita sacar adiante as suas famílias, ao tempo que gabam as «fuerzas de seguridad».

Os trabalhadores do metal luitam por um convénio que lhes permita nom ter que trabalhar onze horas diárias com um ordenado irrisório, que lhes proiba aos empresários lucrar-se fazendo dumping social, quer dizer, contratando a estrangeiros aos que exploram ainda mais ao retribuir-lhe pola sua força de trabalho a metade do que cobra um operário galego.

A dignidade do agro corre novamente polas cidades. O preço do leite nom cubre os custos de produçom e a Junta e o governo da metrópole miram para outro lado e pretendem um contrato estrafalário e trapalheiro que nom garante nengum preço fixo e que se guia polo preço de referência francês, de onde venhem os excedentes que arruinam os nossos gandeiros e com uns custos de produçom mui inferiores aos galegos. O Sindicato Labrego Galego (SLG) já advertiu que nom apoiará esta farsa, porque um preço por debaixo dos quarenta cêntimos segue a significar a ruína e o feche de centos exploraçons no nosso país. Feijó demonstra a sua esclerose e paralisia institucional denegando a demanda dum grupo lácteo galego com capital público e por sua vez exige que os gandeiros sejam mais competitivos, ou seja, alia-se com as multinacionais da distribuiçom e fere de morte o que queda da nossa soberania alimentar. A única medida paliativa é adiantar as subvençons europeias, mas endevedamento para as exploraçons, que nom receberám esses 110 milhons de euros de forma directa como ocorre, por exemplo em Asturies.

Haverá-lhe que lembrar aquelas palavras de Engels aparecidas em 1896 na revista Neue Zeit:

O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas. Assi é, com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que el converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que isso. É a condiçom básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau, que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio home.


Ora bem, sempre que este trabalho seja digno, a contrário fará honra ao título do artigo citado: «Sobre o papel do trabalho na transformaçom do home em macaco». Esses macacos que eles desejam manipular, quanta menos cultura e formaçom melhor que melhor para os amigos da democracia e a liberdade, que apresentam a supressom da gratuidade dos livros de texto como umha maravilha, já que só «pagarám os ricos», ou seja, que acabárom crendo que rematárom com a crise, porque a supressom afectará a 78% das famílias. Tanto rico confunde-me, ou acaso pensam que os cidadaos desta naçom galega nom pisam a rua e apenas consomem o tele-lixo que vocês lhes espargem desde a RTVG, formosa “doma y castración” da mesma por certo, Veo TV, Intereconomia, Popular TV e demais família que pedem umha oraçom polo eterno descanso da ética no jornalismo?

Com a naçom galega cruzada de tensons sociais e confronto o novo governo irá passar umhas bem merecidas férias, nas que poderá descansar porque cumpriu com os seus valedores meseteiros. As regressons sociais, económicas e culturais criárom um clima desconhecido na sociedade galega desde os últimos tempos da era Fraga, em que já participara tamém o Núñez Feijó. O PP polariza a sociedade num jogo perigoso em que procura fidelizar aos seus votantes mais ideologizados e aprofundar as suas redes clientelares com o beneplácito dos poderes fácticos meseteiros aliados e com o contínuo trabalho de intoxicaçom mediática de La Voz de Galicia. Avondará-lhe para submeter a este povo?

No seu afám de medrar em Génova, agora que os pesos pesados parecem cair em desgraça com o escandaloso Caso Gürtel, volve a antiga ladainha de que Galiza é umha comunidade pobre e alá vai de esmoleiro petando na porta do governo central. Os altifalantes mediáticos ao seu serviço aprestam-se a explodir esta difamaçom, ainda sabendo que é radicalmente falsa. Em vez de discutir um troco no modelo, em que se descentralize nom só o gasto, mas tamém os ingressos, dedicam-se a umha campanha de catalanofóbia e a manter a nossa naçom num rango mui inferior ao que lhe corresponde constitucionalmente como «nacionalidade histórica». O nosso Estatuto, morto de inaniçom, fica já nom só por baixo do de Euzkadi ou Catalunya, mas tamém é inferior ao do País Valencià ou ao andaluz. Assi nos vai.

As galegas e os galegos devem ter clara umha cousa, que nom existe essa tam manida solidariedade do Estado. É um outro mito do espanholismo. Ainda quando muitas das empresas que exploram os nossos recursos e fiscalizam os seus impostos em Madrid, como Fenosa e Iberdrola, que fam um “cristo” outra vez da Ribeira Sacra com total impunidade e sem contrapartida algumha para os concelhos da zona nem para a Junta, Galiza achega mais ao Estado do que recebe. Segundo a última liquidaçom fiscal disponível a Galiza contribui para o Estado com 12.563 milhons de euros em impostos e recebeu na financiaçom apenas 8129, que agora serám menos pola grande negociaçom popular de Feijó & company com os governos de Asturies e Castela e Leom depositários como se sabe da caixa central de Pepinho de Palas, esse magnate que vai fazer aqui um AVE cujos bilhetes serám com certeza asequíveis aos parados e operários deste país, ao tempo que se desmantela o território e se suprime a oportunidade de investir num comboio-de-proximidades verdadeiramente popular e eficiente (algo que o BNG deveu esquecer ao apoiar tamém desde arriba a este comboio-da-vergonha).

Ao mesmo tempo o PSOE propom relançar a negociaçom do Estatuto de Autonomia com a esperança de que seja um estatuto forjado em Madrid, coma o da UCD de 1981. O PP nom tem presa, porque é-lhe mais urgente reformar a Lei do Menor, que por certo aprovárom eles em 2000, e assi reprimir e nom educar aos menores de 14 anos aproveitando as feridas sociais abertas polos meios de incomunicaçom nestes dias na sua política de “todo vale” para aterrar na Moncloa. Imos aviados, e a nossa naçom este 25 de Julho terá como pano de fundo o poema «Penélope» de Dias Castro, crónica lírica da história dum colonialismo interior secular: «un paso adiante e outro atrás, Galiza,/ e a tea dos teus soños non se move./ A espranza nos teus ollos se esperguiza. / Aras os bois, e chove».

Os bois, a massa, segue com o jugo, o povo em pé, com dignidade, afouteza de espírito e um eco unánime neste Dia da Naçom Galega: Nós Sós!

segunda-feira, 13 de Julho de 2009

25 de Julho, dia da naçom galega


Após a multitudinária concentraçom do passado 17 de Maior é necessário que o povo galego volte expressar mais umha vez a sua dignidade com umha grande manifestaçom neste 25 de Julho, o dia da nossa naçom, a naçom galega. Com indicava Castelao, o risco fundamental do nosso povo é a língua e se "ainda somos galegos e por obra e graça do idioma".

Nesta semana o sector gandeiros e leiteiro voltará às ruas reclamando um preço digno para os seus produtos, que faga sustentável e rendível o seu trabalho, o que passa por um contrato do leite com um preço de 0'42 céntimos por litro de leite, ao tempo que é necessário frear as importaçons de leite negro francês.

Este 25 de Julho, coma todos os dias do ano cumpre pensar, sonhar e agir por umha Galiza ceive, socialista e nom patriarcal:

Nós Sós!

segunda-feira, 6 de Julho de 2009

O Brasil fala a língua galega


Júlio César Barreto Rocha


"Omite-se o nome da Galiza, como se esta não
existisse, como se esta não tivesse história,
vida e cultura nacional."

(M. A. Fernán-Vello, poeta e galeguista)

Não se pode dizer que traz muitas facilidades dizer que o Brasil fala a língua galega, quando já pouco se discute que fale "português", dentre os filólogos. Também não se poderia afirmar que este é um tema novo. Ao contrário: são ao menos setecentos anos em que muitos estudiosos do Mundo, muita vez por ignorância quanto à "questão da língua galega", não põem em dúvida a existência de um idioma eminentemente "português", diferenciado em sua essência de suas raízes primeiras, "sendo oriundo diretamente do latim". São pelo menos setecentos anos desta injustiça histórica; uma injustiça cultural com um povo, mas também sócio-política, ademais de lingüístico-terminológica. Muitos por certo são contrários de antemão a nomear de "galego" à língua comum atual empregada por brasileiros, portugueses e galegos, valendo-se de artifícios pseudo-sociolingüísticos para isolar as várias faces do idioma. Contudo, um olhar mais detido e menos desdenhoso com a História e com a ideologia que inexorável conduz o resultado dos estudos --a cuja menção também não é nada nova-- poderá contribuir com alguma luz às investigações filológicas, no que concerne ao estudo do "português" como um continuum, de antes de abandonar a Península Ibérica a nossos dias, conciliando os ânimos dos lusitanistas munidos de "pré-conceitos" com o melhor dos argumentos: a inafastável História e uma penetração nas diretrizes das "razões de Estado", do caminhar da História em si, ou mais concretamente na História da Língua, e a partir do prisma das Políticas Lingüísticas dirigidas pelos Estados.

É certo que há neste texto imprecisões variadas, desde o título (uma vez que não é a terra que fala uma língua, mas seus habitantes). No entanto, outros elementos, dantes afastados, parecem mais importantes de realçar neste momento. Em primeiro lugar, deixo patente que estarei me referindo à "fala", não à escrita, quando imagino a "língua", seja de antes do século XIV (quando não há controvérsia quanto à nomenclatura), que hoje é admitida por todos como "galego-português" [1], seja a atual, seja aquela de antes da escrita no idioma que se diferenciava do latim. A língua na modalidade escrita, a partir da concepção de signo em Saussure, é ainda mais arbitrária que a língua na modalidade falada, portanto menos representativa. Assim, o que ganha primazia, aqui, para a consideração de língua, como veículo de comunicação (máxime na Idade Média), é a realização oral. A essência da linguagem é o diálogo, como se sabe. A fala é língua viva, a língua "verdadeira", e bem mais importante que a escrita, que veio a ser mera decorrência daquela. Assim, o fato de existir o desejo de procurar distanciar uma variedade lingüística da outra por intermédio de artifícios ortográficos não será relevado aqui. A Filologia, para aqueles que insistem em opô-la à Lingüística, pode prescindir dos estudos sobre a fala, mas vale-se constantemente de uma projeção do que deve ter sido a fala de antanho, a partir de textos escritos --mas não pode ignorar o fato de que a fala existiu antes de os textos ganharem um suporte físico mais estável, seja ou não mais "literário", como os poemas dos cancioneiros galego-portugueses.

E, a despeito de sabermos que fala difere de escrita, e sabermos que uma língua dispensa a representação gráfica, havendo ainda distinções internas maiores, consideradas como ritmo, prosódia, entonação, "sotaque", etc., muitos filólogos ainda cedem à tentação de tomar uma coisa pela outra. No texto de Fernández Rei "Posición do Galego entre as linguas románicas" [2], o ótimo professor constrói um texto de excelente qualidade histórica e, ao final, resolve alcançar uma determinada conclusão, querendo isolar a língua galega da portuguesa, ao confundir língua com variedade de fala, por intermédio de uma citação de Otero Pedrayo, que diz:

"O galego é moito mais fermoso que o portugués. Ten menos dificultades de pronunciación: é unha lingua románica, latina, amplia, simpática, aberta. Hai que conservala así."


O trecho desafortunadamente eleito obviamente não é um argumento filológico; reflete não apenas preconceito, mas dá ainda mais espaço a uma confusão secular que isolou o povo português de seus lingüísticos "pais" galegos: ressalta pequenas distinções de pronúncia, com um toque de patriotada, e dele resulta uma justificativa do tipo "rebelde sem causa": como o voluntarismo de um adolescente que deseja deixar a casa paterna. Claro que, no caso em tela, é o "pai lingüístico" que se rebela, pela voz do Otero Pedrayo em boca de Fernández Rei, contra o "filho lingüístico", que herdou a língua galega, quando se constituiu em Estado soberano no século XII, e deixou os pais esquecidos nas tramas do passado comum [3]. O reinado da Casa de Avis (1385-1580) em Portugal consolidou a idéia de que a língua, antes sabidamente geral, de ambos, galegos e lusitanos, era originariamente "portuguesa", existindo um período de "formação" apenas superado após ultrapassado o tempo de glória dos cancioneiros medievais.

Claro que já não é mais admitido pensar Otero Pedrayo pela ótica daquele viés momentâneo da citação supramencionada, ademais extraída de uma simples entrevista. Segundo o escritor Méndez Ferrín, em recente colóquio em Compostela [4], Pedrayo foi o primeiro que levantou a bandeira em favor dos portugueses [5]. Todavia, ainda não é este o nosso tema central. O que desejo relevar é o fato de que a língua portuguesa, como já se sabe de longuíssima data, não é propriamente portuguesa; ou seja, a língua falada em Portugal, queira-se ou não, veio de fora de suas fronteiras de hoje, e é anterior aos Cancioneiros galego-portugueses, anterior ao Estado português: nasceu numa terra que constitui o que ontem era a Gallaecia e ainda hoje é a Galiza, uma Comunidade Autônoma. Logo, o idioma aqui gerado e desenvolvido deve ser chamado de "galego".

O que atrai a atenção, neste caso, é a omissão histórica: como pode um fato tão simples ser mantido obscurecido, como um segredo de alcova, por tanto tempo, afastado dos livros e das discussões? Não podemos continuar fingindo que poucos estudiosos lembram de citar a Galiza quando se referem aos "falantes de português" que há no Planeta [6]. Esta omissão não é, como poderia parecer à primeira vista, fruto de mero esquecimento. Como tudo neste mundo, houve, e de uma maneira diversa continua havendo, bons motivos para "esquecer" este fato, que, analisado, não chega a ser tão estranho assim.

A Galiza forma uma nação concreta, que, juntamente com outras várias nações (Castela, Catalunha e o País Vasco), constitui o Estado espanhol. A Galiza é, em tudo, uma espécie de "país dentro de um país", com seus desejos, história, fronteiras, tradições, mártires e lendas diferenciados. A língua também era diferenciada desde o primeiro milênio de nossa era. Logo, trata-se aqui neste texto de fazer constar uma simples anotação: a língua dita "portuguesa" não é verdadeiramente portuguesa. Isto é: não é precisamente autóctone do território português, como se vangloriam por séculos "os pais" dos brasileiros. Durante quase um milênio foi muito interessante para Portugal ignorar a existência da Galiza, pois isto mantinha o mito de que a língua dita portuguesa fora gerada e era originária exclusivamente de seu território, de seus habitantes, que englobavam os primeiros lusitanos. Podiam, assim, com mais vã-glória, jactar-se os governantes, perante o povo, de serem portadores e guardiães do idioma de Camões [7], obtendo a união das gentes e o propósito comum que conforma um Estado-nação. Posteriormente viria a idéia de que levava "seu" idioma a terras as mais distantes do Globo.

Não podemos negar a bravura dos aventureiros marítimos, dos tenazes navegadores portugueses. No entanto, por uma questão de respeito à história, deve ser desvelado, com todas as letras, que, na realidade, os portugueses levaram consigo não um idioma próprio, mas a língua galega, o idioma que primitivamente era dos habitantes do Norte da Península, que ficavam para trás, esmagados pela histórica pressão castelhana, que "domou e castrou" os verdadeiros "pais da língua", os quais falam o galego até nossos dias.

Criado por derivação do latim, o galego recebeu contribuições germânicas, elementos árabes e componentes indo-europeus e pré-indo-europeus de todo tipo, ainda na Galiza, no antigo território da Gallaecia romana. Depois descendeu mais ao Sul, levado pelos galegos, e ocupou o Norte do espaço que somente muito depois pertenceria ao território global do que seria chamado Portugal, entre os Rios Minho e Douro, e em seguida se estendeu até o Mondego (limite da Gallaecia até avançada época), para finalmente se espraiar até o extremo Sul da Península, e agregar outras contribuições (moçárabes, inclusive). Podemos aqui traçar este paralelo: Assim como o Brasil, após receber o patrimônio lingüístico dos portugueses --assimilando componentes tupis ou africanos-- manteve a estrutura da língua dita "portuguesa", da mesma forma os portugueses admitiram outros elementos, mantendo a estrutura originalmente galega.

Com o tempo, a Galiza foi esmagada politicamente, enquanto Portugal desenvolveu uma literatura pujante, e sobretudo conquistou outras terras, distribuindo "sua" língua e sua cultura. Chegado o século XX, e com a queda do regime franquista, e com a Constituição espanhola de 1978, as comunidades nacionais da Espanha recobraram o direito à proteção de seu patrimônio lingüístico. Em 1981 surgiu o Estatuto da Comunidade Autônoma da Galiza [8], que expressamente devolvia à legalidade a língua galega, que, oculta por séculos, ficara restrita quase que somente ao meio rural, mas que, em tudo, lingüisticamente falando, é a mesma língua portuguesa, como atestam filólogos de todas as partes e de variada tendência.
Não podemos esquecer que Portugal é tido como o país que possui a fronteira "mais antiga e mais estável do mundo" [9]. Mas isso se considerarmos o Portugal-Estado como entidade política, soberana no conjunto das relações internacionais. Como nação, que é o conceito principal implicado na concepção de língua, a Galiza é naturalmente mais antiga que Portugal [10]. O fato de que a Galiza tenha sido reinado peninsular entre os anos de 926 e 929 não diz realmente tudo. Mais do que isto, os galegos se constituem como povo com identidade própria, diferenciada, criadora da língua, de hábitos e de tradições ainda antes disso. Confirmando essa idéia, diz o texto promocional de uma série de "encontros" que terá lugar neste ano de 1996, de 16 a 19 de dezembro, no Museu do Povo Galego:

"Na cidade galaico-romana de Bracara Augusta, hoje Braga, apareceu já há bem tempo uma inscrição dedicada a un neto do imperador Augusto. Nela surge à luz, pela primeira vez, o nome de Gallaecia. É a sua primeira aparição histórica documentada. Não é possível conhecer a data exata dessa inscrição, que pode ir desde o ano 5 antes de Cristo até o 4 depois de Cristo. Alguns dados fazem mais provável o ano 3 antes de C." ("O Feito Diferencial Galego na Historia")


Ora, a Galiza é um país de dois mil anos pelo menos; possui um idioma consolidado há mil anos aproximadamente. A despeito de existirem habitantes do Sul como povo diferenciado politicamente antes disso, o "Portugal", como um todo, existe como Estado há apenas 800 anos [11], e recebeu a língua evoluída do latim desde o Norte --como se deu também com o próprio castelhano e o catalão. Logo, o idioma português é verdadeiramente a língua galega que foi ligeiramente modificada, e não o contrário.

O ocultamento deste fato histórico se deve fundamentalmente a dois grupos de fatores. Por um lado, os "séculos obscuros" e o esmagamento político da Galiza, aliados à modéstia galega, e à natural soberbia da Pátria de Camões --que com os chamados "grandes descobrimentos" conduziu os estudiosos ao erro de encobrir outros fatos importantes do passado, submetendo a História à Sociolingüística. E, por outro lado, deveu-se esta situação à difícil convivência entre os impérios espanhol e português, que tinham no território da Galiza o ponto nevrálgico de seu relacionamento. Dois impérios globais em confronto necessitaram desta mentira secular.

Ilustrando o submetimento da História à Sociolingüística, recordo das palavras de Carvalho Calero [12], acerca dos "co-dialetos originais, português e galego". Segundo o eminente filólogo, "um adquiriu categoria de língua e o outro permaneceu em estado dialetal". Claro que este erro já foi corrigido pelo próprio Carvalho Calero, mas deixa entrever profundas marcas deixadas no espírito do povo galego, que possui a consciência, hoje, de que fala uma língua própria, de pertença original de seu território, e não um dialeto "derivado" do português ou mesmo do castelhano (como já aventaram, através dos séculos, estudiosos dedicados a defender um ou outro império). Afinal de contas, embora existindo apenas na modalidade falada, uma língua não pode ser rebaixada a estado de dialeto --e isto era uma necessidade do par de impérios, Portugal/Espanha: para manter seu equilíbrio, sempre inestável, por um lado omitiram a realidade da paternidade galega da língua que era e é comum às duas margens do Minho, e por outro lado castravam a modalidade escrita do galego.
Cabe destacar também que quando se fala no período de "formação da língua portuguesa", fala-se na verdade da língua galega formada, mas que, como qualquer língua, está em constante deriva, evoluindo em alguns traços, incorporando as necessidades lingüísticas dos falantes. Ressaltar o português em oposição ao galego-português antigo é, em grande parte, cumprir uma determinação política imposta pela antiga disputa territorial. A língua, em sua essência, permaneceu indomada, embora esmagada a modalidade escrita do tronco principal galego; fato jamais negado pelos estudiosos de todas as pátrias: "Galiza e Portugal apresentavam perfeita unidade de língua e literatura", disse o brasileiro Leodegário de Azevedo Filho [13]. No mesmo sentido, José Luis Rodriguez, Catedrático da Universidade de Santiago de Compostela, em sua tese de doutoramento, lembra que "en cuanto a la uniformidad, () constituye (el gallego-portugués) un bloque más unitario aún que el provenzal literario" [14].

Em um livro intitulado "Galicia y Santiago", publicado no México em 1749, fala-se a respeito de autores espanhóis, de expressão castelhana, descendentes de galegos, como "escritores de Galicia" [15], o que retrata a tentativa de, para reprimir a fala, e garantir a unidade de território, fixar a escrita em castelhano como a única possível, fato corrente até mesmo há poucos anos: o idioma cervantino era o apropriado à escrita empregada nas Universidades galegas, inclusive. Esta é uma verdade que, nestes últimos quatro lustros, apenas deu os primeiros passos em um agora inevitável processo de superação dos "séculos obscuros prolongados" [16].

Os brasileiros, quando buscavam auto-afirmação político-lingüística perante a antiga Metrópole portuguesa, admitiram, após polêmicas acerbas, cujo epicentro está em meados do século passado, que seu idioma era mesmo o "português", e não uma "língua brasileira" --por razões lingüísticas, mas destacando fundamentalmente o cunho histórico. Pelo mesmo motivo, podemos então admitir que o Brasil fala, à sua maneira, a língua galega, uma vez que o idioma que falamos, derivado do latim, é autóctone da Galiza, que transformou a língua dos romanos antigos, bem antes de terem-na os estudiosos como "língua portuguesa".

É claro que, tratando sincronicamente, poderemos divisar inúmeras possibilidades de interpretar a fala brasileira (já por demais polifacetada em seu próprio território) em dissonância com a galega: de séculos de distanciamento cultural quase que completo não poderia resultar uma equivalência absoluta [17]. Entretanto, no âmbito da diacronia, resgatando as origens de nossa língua compartilhada, é inegável a conclusão de que o Brasil, com traços característicos, fala o galego. Ademais, este trabalho se insere na conjuntura ideada de uma História da Língua que não pode, hodiernamente, eludir a política lingüística ditada pelos interesses de Estado. O erro de estudiosos dos séculos passados, a despeito da famosa admoestação de Nebrija [18], a dissimular o viés da interpretação que segue o caminho dos interesses econômico-imperialistas, permitiu o esmagamento de povos e a subtração de outras verdades límpidas como esta, que os filólogos devemos trazer à luz.

Claro que poderíamos manejar outros argumentos, que não apenas o elemento histórico. Lindley Cintra [19], apoiado em Leite de Vasconcelos, alude, por exemplo, à "influência de hábitos articulatórios de um substrato étnico" de celtas, que, sabe-se, deslocaram-se desde o Norte, "cuja presença Estrabão e Plínio assinalam nas margens do Tejo". Desta forma, o próprio filólogo português explicita que o sistema vocálico luso teria sofrido influxos desde o Norte galego. A presença das vogais mais escandidas no galego atual, que possui menos força ao Sul, em Portugal (cujos falantes obscurecem as ocorrências destes sons, como em "m'nino" ou em "p'ssoa"), permanece mais integral no território brasileiro, cuja população, em sua quase absoluta totalidade, encontra parâmetro distintivo do falante português justamente nesta vocalização mais "perfeita" nossa, por assim dizer, igualando-se ao falante galego --que inegavelmente mantém também mais acesa esta "característica celta". A língua falada na Galiza, que é a real Pátria da Língua, que instituiu o sistema vocálico e a musicalidade do galego, faz-se presente no Brasil. Portugal, deixando-se influenciar pela fala moçárabe (como querem alguns), de certa maneira "capou" a musicalidade galega aludida por Otero Pedrayo.
Agitam-se alguns estudiosos com a idéia, justamente, de que a influência moçárabe em território português, mais ao Sul de Braga, diferenciou a língua determinantemente do galego constituindo-a em "outra língua". No entanto, sob o prisma histórico-cronológico mais singelo, este argumento não resiste por muito tempo: Os moçárabes já se encontravam também mais ao Norte, no território que apenas séculos depois seria considerado "português", ainda no século VII, antes quinhentos anos de existir Portugal politicamente. Portanto, ainda no território da Galiza integral se formaram variantes futuramente tidas como distinções "portuguesas". Podemos dizer, então, que, quando falamos de "português", trata-se da "variante portuguesa" (ou meridional) da "língua galega", porquanto esta já existia antes de a grande e brava nação lusa se constituir em Reino independente; logo, o idioma que se fez mais ao Norte, e deslocou-se posteriormente para o Sul é ineludivelmente o galego.

A língua portuguesa de hoje não é mais que uma variante sulista da língua galega de antanho; um co-dialeto, é certo, mas que também poderíamos chamar de galego-português infra-Douro, o qual, mesmo no território de Portugal, possui distinção com a variante de entre Minho e Douro, e ainda com o Mirandês, ao Nordeste [20].
No entanto, este não é o caminho ajeitado para tirarmos as conclusões. Não nos podemos deter em tecnicismos fonéticos, morfológicos, sintáticos, lexicais ou mesmo de entendimento mútuo [21]. Desde sempre pôde-se brandir exemplificações em defesa da proximidade ou da distância entre dois falares, no propósito de provar, para os interesses de quem organiza os argumentos, a partir do corpus elegido, que tratamos ou não de uma mesma língua. O livro de Edith Pimentel Pinto "O Português do Brasil" [22] arrola uma boa dezena de argumentos que poderiam municiar os "isolacionistas" de existir uma hipotética "língua brasileira" (ou até várias) conforme os interesses de quem financia os estudos. Já há desse tipo de artifício pela Galiza. Nas atas das "Primera y Segunda Asembleas Lusitano-Gallega", da Real Academia Gallega", ocorridas há trinta anos, há constância de que existem as palavras "pulpo" e "paquete" na Galiza, diferentemente do que em Portugal --ergo fala-se aqui uma língua distinta do português [23].

Nem vou perder tempo em comentar este "argumento". Também a língua castelhana já se bateu com dificuldades semelhantes, com a possibilidade de existir o "andaluz", o "chileno", de Andrés Bello, ou o "idioma nacional dos argentinos", de Luciano Abeille. O que é notável é a persistência dessa gente pouco detida em estudos paralelos, nesta inglória tentativa de afastar dois povos e uma língua na Europa Moderna. Necessário mesmo, nos dias de hoje, é a aproximação lingüística, cultural e econômica. Para isso, precisamos especificar a concepção de "dialeto" e de "língua", que estão tradicionalmente vinculados a ideais geográficos, quantitativos e políticos. Leite de Vasconcelos trata de dialecto (meridional), subdialecto (estremenho) e variedade (de Lisboa) sem medo de nomear a língua "principal", que, para ele, naturalmente, é o português [24]. O Brasil de 1897 percebeu possuir "variados elementos para se constituir, senão novo idioma, pelo menos importantíssimo dialeto" [25]. Ora, sabedores de que o tronco principal é a língua galega, não a portuguesa, podemos dizer que Portugal falava um dialeto do galego, e o Brasil Colônia um subdialeto do galego-português. No entanto, devido a razões de natureza sócio-política, à importância cultural da nação brasileira, no âmbito das nações modernas, e até mesmo à expressividade do número de falantes brasileiros; devido também à distância geográfica que separa os três países, Brasil de Portugal e Galiza, e às razões históricas já aludidas, não vejo dificuldade em afirmar que o Brasil fala galego. Um dialeto mediado por Portugal; naturalmente com diversas preferências lexicais ou fonéticas, que distingue, amplamente, mesmo no Brasil, um falante do Estado do Rio Grande do Norte de um falante do Estado do Rio Grande do Sul, mas não deixando de ser um "importantíssimo dialeto" --como diria Taunay-- ligado diretamente à língua troncal galega --não um subdialeto ou uma variedade, qualificações inconcebíveis, porquanto o Brasil comporta cerca de 80% dos perto de 200 milhões de falantes da língua galega distribuídos pelo mundo.

Além do argumento de destacar a verdade histórica, penso que podemos arrolar outros argumentos que creio serem interessantes, a partir de vários pontos de vista, que poderiam, de certa maneira, redimir, sociolingüísticamente, a histórica injustiça perpetrada contra o povo galego, devolvendo o rótulo de "galego" à nossa língua comum. Jamais poderíamos é admitir uma teoria que servisse tão-somente a interesses de impérios frustrados, interesses até justificáveis quando se busca, por exemplo, afastar dois povos em guerra perpétua através dos tempos, como os falantes de lugares como Sérvia e Croácia, que, igualmente por razões de Estado, por motivações de lutas efetivamente sérias (seja entre etnias, religiões ou comerciais), após a implosão da contigüidade de interesses, exacerbam diferenças de fala e de escrita.

E determinar o nome do idioma não era trabalho tão complexo ou controverso. Gabriel Alomar [26] opõe três distintos modos para denominar um idioma: por sua origem; ou por sua implantação em um estado soberano; ou por sua expansão territorial. Nessa perspectiva tripartida, a língua oficial da Espanha-Estado poder-se-ia denominar ou "castelhano", ou "espanhol", ou "hispano-americano", sem deixar de ser o mesmo idioma difundido pelo mundo. Contudo, salta aos olhos que a denominação originária, "língua castelhana", obedece a um caráter mais científico, porquanto, com admitir a segunda opção, inevitavelmente abrangeríamos, ampliando um equívoco, outras línguas também pertencentes à territorialidade espanhola (afinal o galego, o vasco e o catalão também são "línguas espanholas"); e, enfim, com a terceira hipótese, no conjunto da "expansão", perdemos outras vertentes das antigas conquistas do povo espanhol, como Filipinas ou Guiné-Equatorial, para ficar no paradigma castelhano. Além disso correríamos o risco de, mais uma vez, confundir os inevitáveis vários dialetos, nascidos do confronto de outras realidades culturais, com a língua matriz, considerando dialeto como sendo língua.

O critério da origem é, desde já, o mais acertado, portanto. Mas, por outro lado, é lógico que, ao dizer que o Brasil fala galego, não podemos esquecer a consideração histórica prestada ao idioma "português". Afinal, o que conhecemos hoje como "língua portuguesa" é assim considerado não apenas porque o povo galego foi esmagado politicamente pelo centralismo espanhol, mas complementariamente e sobretudo porque o povo português conquistou espaço na comunidade planetária, tanto literária como politicamente --espaço, aliás, dividido hoje com a presença do Brasil no concerto das nações de economia sólida, e com a literatura brasileira ganhando terreno; e brevemente espaço repartido com a pujante literatura galega, de Méndez Ferrín, de Suso de Toro, Manuel Rivas, Fernán-Vello e tantos outros.

Estas condições eram inexistentes até há bem pouco. Novamente cito Carvalho Calero [27], que assim comenta a consideração de algumas décadas atrás, de Leite de Vasconcelos, ao denominar o galego "codialeto do português":

"Tão evidente como que, para o grande filólogo português, o galego não se deriva do português, e portanto não pode chamar-se de dialeto seu, é o fato de que aquele autor reputa como insensata a doutrina dos galegos que olham ao português como um dialeto do galego, quando aquela língua possui uma importância cultural e política muito superior (). Um e outro seriam irmãos; mas de hierarquia social distinta." (Grifo nosso.)

Há que anotar que esta postura decerto foi abandonada pelo autor, posteriormente. Contudo, tal preconceito social caracterizando a língua e confundindo o idioma com consideração política da soberania de um povo, dificultou os estudos, e hoje provoca reação negativa por parte de alguns galeguistas, que se rebelam contra o ditado de nomearmos inadequadamente a língua como se fosse dialeto, recusando mesmo, alguns, o fato de possuirmos o mesmo instrumental de comunicação, em repúdio a esse maléfico, mas absolutamente normal (conquanto constructo histórico), vício de origem quanto aos estudos. As línguas, afinal, não são culpadas das vicissitudes por que passam os povos que as empregam. Fosse hoje Lisboa cidade da periferia de uma hipotética Grande Galiza, e não a ex-capital de um portentoso Império Transcontinental, embora já sendo este um fato pertencente ao passado, ninguém hesitaria em chamar "variedade lisboeta da língua galega" ao se referir à fala dos portugueses que foi o paradigma mundial por um bom tempo [28].

Língua, como se sabe, dispensa o governo e até o território nacional, podendo sobreviver apenas na tradição oral dos povos (as línguas indígenas do Brasil, v.g.), podendo ser recuperada integralmente na modalidade escrita, como o grego e o iídiche, por exemplo. Divulgada com mais eficiência, agora que a Galiza será tida como uma Comunidade Autônoma na União Européia, com território, povo, costumes, governo autonômico, idioma normativizando-se, pouco a pouco, não há por que não recuperar esta injustiça histórica, que o Rio do Esquecimento, situado geograficamente nas cercanias de onde nasceu nosso idioma comum, obnubilou por séculos a fio.

Dizer "o português no mundo" não é de forma alguma uma impostura, mas é sem dúvida uma imprecisão terminológica. Alguns galegos provavelmente desconsideram este rótulo de "galego" conferido à nossa língua comum, não exatamente devido ao "auto-ódio", mas sim com algum traço de eurocentrismo, uma vez que haveria preponderância dos dez milhões de habitantes de Portugal sobre os dois milhões e setecentos mil galegos --além obviamente da consideração universal da pujante literatura portuguesa camoniana e moderna, também contraposta à galega, que apenas desponta, enquanto o Brasil permanece obscurecido, numa imagem nebulosa e distorcida de samba, futebol e pobreza.

A idéia é de, rompendo este vício eurocentrista, natural mas nocivo a uma real integração cultural-lingüística (e também sócio-econômica), podermos iluminar as maiores razões de afirmar a língua galega presente no mundo. Concluindo este texto, após os parcos argumentos que alinhavei com imperícia, quero comentar ligeiramente acerca da possível reação dos implicados diretamente nesta necessidade política de decisão terminológica. Para os brasileiros, sei que seria muito natural admitir este fato histórico, trazido à tona recentemente com maior ênfase, de que falamos uma língua que não é realmente "portuguesa", mas um dialeto brasileiro da língua galega. Os argumentos seriam os mesmos que concluíram antigamente que falávamos a mesma língua dos portugueses. Se levarmos em conta o ideal da resistência natural aos antigos colonizadores, isto é, a inescusável necessidade de a ex-colônia repudiar politicamente a antiga Metrópole --não apenas um direito, mas um dever nacional, o que era mais expressivo até poucas décadas atrás com o Portugal-Império--, verificaremos ser bastante aceitável admitir que o Brasil, a seu modo, e com sua diversificada caracterização, fala o idioma galego [29].

Para os galegos, penso que admitir que "o Brasil fala galego", concedendo sem mais problemas o "rótulo", seria sobretudo retomar a bandeira de certo nacionalismo nobilitante, arrebatada das esquerdas pelas "novas direitas". É natural estarem os galegos confrontados com os interesses portugueses, após séculos vivendo "de costas viradas", em que Portugal apoiou, ao menos pela omissão, os interesses do império vizinho, seu semelhante, seu igual. É significativo o indício deste fato, retratado na Galiza, onde a imposição do espanholismo que ainda resta de índole franquista propicia que, espíritos menos iluminados, ao chamar alguém ou algo de "lusista", suponha agregar algum matiz pejorativo. Este obstáculo ao reintegracionismo lingüístico-cultural (e de consideração político-econômico) seria retirado.

Para o conjunto dos espanhóis devemos verificar os aspectos macro-econômicos, e considerar os novos momentos da integração pela via da União Européia, e no marco da cúpula ibero-americana clausurada em Santiago do Chile em 11 de novembro último. Os países do Mercosul terão acesso à Europa pela mão da Espanha e de Portugal. Inexiste entre os países ibéricos a animosidade de antanho. Em 1998 a Galiza e Lisboa estarão interligadas por autoestrada [30]. Os antigos impérios português e espanhol possuem agora inextricáveis interesses, estão indissociados, em marcha célere de rompimento de fronteiras, agora com interesses comuns de enfrentar o gigante americano [31]. Despovoa-se a Galiza rural, dando lugar a uma Comunidade urbana e internacionalista [32]. Decerto aceitarão com certa facilidade --inconcebível à Espanha do franquismo-- este viés galeguista. Jorge Urrutia apresenta de seu modo esta visão:

"La expansión de las lenguas minoritarias se acompañará del mejor conocimiento de la común si pedimos, a la vez, el estrechamiento de las relaciones culturales entre las distintas comunidades. El cultivo de la lengua común es el que puede difundir por el término con referencia sólo al número de hablantes de la lengua en la que se expresan. Tenemos que recomendar la enseñanza de las lenguas no sólo en las regiones que las hablan; es preciso un conocimiento mínimo de todas las lenguas de España por todos los españoles. Una medida políticamente difícil, pero posible." [33]

Claro que em Portugal temos a maior dificuldade: estão os portugueses na situação de Édipo, que, tendo conhecimento de haver matado seu "pai" lingüístico, nestes séculos de omissão, não poderão facilmente admitir este "pecado capital" e abrir mão do poder que detêm, no âmbito das nações planetárias. Como afirma o sociolinguista galego Celso Álvarez Cáccamo,


"nesta questão de Estado, não se luta efetivamente contra um estado sem implicar o outro no confronto. Por isso, aqui e agora, a resistência efectiva passa por articularmos uma submissão rebelde ao âmbito português, ao seu estado e à sua cultura: por ver-nos como uma florescente excrescência sua, não do Reino da Espanha nem da cultura espanhola. A resistência passa por criarmos novos vínculos transfronteiriços que vulnerem a lógica histórica da dominação espanhola; por impormos sobre Portugal (não sobre Espanha) a nossa diferença" [34]


Não é difícil prever que para atingir a meta da reintegração da Galiza com o espectro luso-afro-brasileiro, poder-se-ia voltar as costas momentaneamente a Portugal, abraçar mais o Brasil e ex-colônias portuguesas [35], abrindo mão do eurocentrismo, e rejeitando o reducionismo de siglas como PALOP, que possui índole nitidamente discriminatória.

Seja como for, a simples discussão, a crua polêmica acerca do nome da língua comum, não é um exercício vão: é benéfica por si só: leva à consciência de existir um fio de unificação lingüístico-cultural, que vem de longe; que procede dos celtas e se reúne com os índios tupis na América, por exemplo, ou com os bantos, na África. Não podemos desdenhar as razões históricas da ideologia segregacionista, que impede alguns de dizer abertamente que o cidadão galego fala a língua portuguesa, ou que muitas vezes força um brasileiro mais "revoltado" de admitir que fala "português". Porém podemos afirmar com plenitude que o cidadão brasileiro fala o galego --à sua maneira, obviamente. Não um galego da coiné perfeita galego-portuguesa dos cancioneiros, que este galego não existe mais, nem em Portugal, nem no Brasil ou mesmo na Galiza. Mas o galego das variedades potiguar, gaúcha, minhota, ferrolana. Não devemos aceitar é a manutenção deste consolidado erro terminológico secular pacificamente. Dizer galego, dizer português, dizer "portugalego" ou brasileiro é questão de somenos, mas de necessária discussão entre nós.

Para rematar, gostaria de mencionar Carlos Drummond de Andrade, o poeta maior brasileiro, que, em seu poema "Canção Amiga", musicado por Milton Nascimento, diz:

"Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo.
E saúdo velhos amigos."

Os portugueses não deixam de ser velhos amigos do povo brasileiro. No entanto, cabe resgatar os amigos galegos, que são amigos ainda mais originários (e não trazem consigo o travo da opressão imperialista), pelo fato de serem os geradores da língua nossa, hoje pertencente a muitos povos do mundo por igual --não importando que rótulo tenha, pelas razões maiores de Estado que advenham da dinâmica dos interesses dos Países e de seus cidadãos.


NOTAS E REFERÊNCIAS

1. Conhecida como "a doutrina do galego-português", propagada por Carolina Michaëlis.

2. Francisco Fernández Rei (1988). "Posición do Galego entre as linguas románicas".
In: Verba - Anuario Galego de Filoloxía. N. 15. Universidade de Santiago de Compostela. Vigo. pp. 79-107.

3. De fato, o Professor reelaborou este texto básico do isolacionismo galego, e deixou de lado esse "argumento", embora não o tenha substituído por outro melhor.

4. Colóquios sobre Otero Pedrayo. Faculdade de Filologia. Universidade de Santiago de Compostela. Outubro de 1996.


5. Vide também Isaac Alonso Estravís (1988). "Otero Pedrayo e Portugal". In: Nós - Revista Internacional Galaicoportuguesa de Cultura - n. 7. Pontevedra. pp.39-45.

6. Já Fernão de Oliveira, em sua Gramática da Língua Portuguesa, de 1536, refere-se ao "Cancioneiro Português", evitando mencionar o galego. Mesmo hodiernamente, diversos encontros cujo epicentro era a língua portuguesa, ainda que realizado com estudiosos conscientes da "questão galega", omitiam discussões que envolvessem temas tão prementes como a normativização da variedade nortista do "português europeu". (Vide, v.g., as Actas do I Simpósio Luso-Brasileiro de Língua Portuguesa Contemporânea. Coimbra. 1968.)

7. Camões, cuja origem familiar é galega, como se sabe.

8. Firmado por Sua Majestade o Rei, D. Juan Carlos I, e o Presidente do Governo de então, Leopoldo Calvo-Sotelo.

9. Orlando Ribeiro. A Formação de Portugal; ICLP; Lisboa. 1987. p.21.

10. Ver mais em Julio Cabrera Varela. La nación como discurso. El caso gallego (La estructura del sistema ideológico nacionalista: el caso gallego). Centro de Investigaciones Sociológicas. Siglo Veintiuno de España, s.a. 1992.

11. A Lusitânia foi "pacificada" pelas tropas de César em 61 a. C.

12. Ricardo Carballo Calero (1966). Gramática Elemental del Gallego Común. Galaxia. Vigo. 1979.

13. Revista Internacional Galaicoportuguesa de Cultura Nós. Abr 87/Dez 88. Pontevedra. 1988.

14. Cancionero de Joan de Airas de Santiago - Edición y Estudio. Verba, Anuario Galego de Filoloxía. Anexo 12. Universidade de Santiago de Compostela. Vigo. 1980. p.47.

15. Este livro, que encontrei em uma biblioteca particular em Chantada, é de autoria de "Pascuasio de Seguin (de la Compañia de Jesus)", e datado precisamente de 1. de dezembro de 1749. Reúne sete discursos "em favor" dos galegos, defendendo a lealdade destes perante a Coroa de Castela, inclusive ao lutar contra os portugueses que invadiam o território "espanhol". Isto demonstra a antigüidade das atitudes de intelectuais que buscaram afastar os povos galego e português, mesmo no século XVIII, que serão os precursores dos "isolacionistas" de hoje, num momento em que não há mais essa necessidade geopolítica de afastamento.



16. O idioma oficial, hoje, da Universidade de Santiago de Compostela, é o galego, uma diretriz presente no artigo 8.1 de seus Estatutos, aprovados no 22 de dezembro de 1993.

17. Contam os expertos que Shakespeare, que está "ausente" há menos tempo, se redivivo, pouco reconheceria do inglês falado atual.

18. A recorrente frase "A língua é companheira do Império", de Nebrija.

19. Lindley Cintra. Estudos de Dialectologia Portuguesa; Sá da Costa Editora. Lisboa; 1983. p. 53.

20. Lindley Cintra (op.cit.) pontifica: "A influência de Moçárabes no território português está documentada do século VII ao XII e do Algarve a Entre Douro e Minho. [A mais moderna e completa exposição do assunto (Moçárabes e Mouros) deve-se a M.Viegas Guerreiro, que utilizou e ampliou as notas de José Leite de Vasconcelos, em Etnografia Portuguesa, volume IV, etc.]".

21. Há dialetos, por exemplo, no interior do idioma alemão que não permitem o mútuo entendimento. E há mútuo entendimento entre os falantes de norueguês, danês e sueco, que utilizam línguas diversas. Cf. Ricardo Muñoz Martín; Língüística para traducir. Teide. Barcelona. 1995.

22. Textos Críticos e Teóricos - 1- 1820/1920- Fontes para a teoria e a história (EDUSP; 1978).

23. Américo Lopes de Oliveira. "Da Galiza e de Portugal - O galego e o português: Principaes diferenças Morfológicas entre ambas as línguas". Actas y Comunicaciones. Madrid; Editora Nacional. 1967.

24. Mapa Dialectológico do Continente Português; Lisboa; 1897. p.16.

25. Visconde de Taunay. "O português de Portugal e o do Brasil". In: PINTO, Edith Pimentel. Op. cit.

26. Escritor e político espanhol (1873-1941). Cit. in: Castilla Libre. Boletín del Movimiento Popular Castellano. N. 06. Salamanca. p.17.

27. Ricardo Carballo Calero. Ibidem.

28. É interessante anotar que a norma empregada hoje na ONU e na UNESCO para o idioma português é a brasileira, encaminhada pelo Palácio do Itamarati.

29. O português Agostinho dos Santos, em um livro intitulado Vida Conversável (p.52), acredita que "Portugal tratou o Brasil muito bem quando foi colônia e, se não tivessem sido os portugueses, o Brasil não se teria constituído". Este ponto de vista, que é o oficial na pátria de Camões, obscurece o extermínio de milhões de indígenas, a arrecadação de toneladas de ouro e outros minerais preciosos das "minas gerais", e, inclusive, a devastação de florestas inteiras, praticamente eliminando das terras brasileiras o próprio pau-brasil,a árvore que teria emprestado o nome ao País --dado seu consumo intenso na Europa, nos primeiros séculos da colonização.

30. Cf. o jornal O Correo Galego, de 7 de março de 1996; p. 9.

31. Também esta idéia não é recente. A União Ibérica de 1580-1640, com recuperação da soberania portuguesa reconhecida pela Espanha em 1688, vem sendo continuamente lapidada.

32. Manuel María. "A morte da parroquia rural na Galicia tradicional". In: El Correo Gallego, de 25 de setembro de 1996.

33. "Cuatro lenguas para la Literatura Española". (Capítulo 6.) Cuadernos de Comunicación - 2. Universidad de Sevilla. 1989.)

34. "Pátria e Língua, por última vez". In: A Nosa Terra, 25 de julho de 1996. N. 736. p. 27.

35. Diz Xosé Manuel Sarille: "Tanto no Projeto do Arco Atlântico como no do Eixo (e o projeto Galiza-Norte de Portugal), desenvolvem-se idéias e linhas de atuação no campo econômico e social e sempre se deixa a jeito de coletilha um ponto 'cultural' que não se sabe em que consiste e que no caso do Eixo fala só de patrimônio monumental." ("Os intelectuais galegos, Portugal e Brasil." In: Luzes de Galiza. N. 25. Verão, 1994. Edicións do Castro. Santiago de Compostela).